Dieese defende mudanças estruturais na economia para combater endividamento das famílias

O Brasil vive um cenário histórico de endividamento das famílias. Segundo a Síntese Especial “O aumento do endividamento das famílias no Brasil e o novo desenrola”, publicada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base em dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic/CNC), 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010.
O estudo mostra que o problema se agravou rapidamente nos últimos anos. Entre 2010 e 2018, o índice ficou relativamente estável, com média de 60,7%. A partir de 2019, no entanto, começou uma forte alta, chegando a mais de 80% das famílias em apenas seis anos.
Para o Dieese, o dado não deve ser analisado apenas pelo volume de dívidas, mas principalmente pelo motivo que leva as famílias a recorrerem ao crédito.
Dívida deixou de ser exceção e virou complemento da renda
Segundo a análise do Dieese, grande parte do endividamento recente está ligada ao consumo básico do dia a dia. Ou seja, muitas famílias passaram a usar cartão de crédito, empréstimos e outras linhas de financiamento para conseguir fechar as contas do mês.
O estudo aponta que isso revela uma deterioração das condições econômicas da população brasileira. “O problema central é que o crédito passou a funcionar como complemento da renda familiar”, destaca a síntese especial elaborada pelo Dieese.
Na avaliação da entidade, o crescimento das dívidas está relacionado a um conjunto de fatores econômicos e sociais acumulados nos últimos anos.
Reformas, pandemia e inflação ajudaram a pressionar orçamento
O Dieese aponta entre as principais causas do aumento do endividamento:
- a precarização do trabalho após a reforma trabalhista de 2017;
- os efeitos da reforma da Previdência;
- o congelamento de gastos públicos iniciado em 2016;
- a ausência de aumento real do salário mínimo durante os governos Temer e Bolsonaro;
- os impactos econômicos da pandemia;
- e a inflação elevada dos alimentos, principalmente em 2021 e 2022.
O estudo também chama atenção para a expansão das fintechs e da oferta de cartões de crédito, além da digitalização do consumo e do crescimento das apostas online. Segundo o Dieese, a combinação entre renda baixa, crédito fácil e juros elevados aprofundou a inadimplência e comprometeu o orçamento das famílias.
Novo Desenrola pode aliviar situação no curto prazo
Diante desse cenário, o Dieese considera positiva a criação do Novo Desenrola Brasil, programa federal voltado à renegociação de dívidas. A iniciativa prevê descontos, redução de juros e ampliação dos prazos de pagamento para famílias endividadas, incluindo pessoas físicas com renda mensal de até 5 salários-mínimos (R$ 8.105). O programa também contempla estudantes com dívidas do Fies, pequenas empresas e agricultores familiares.
O programa, considera o Dieese, pode ajudar a reduzir o fluxo de dinheiro que hoje sai mensalmente do orçamento das famílias para o pagamento de dívidas. Mas algumas medidas são consideradas pelo departamento como importantes para evitar novos endividamentos, como a limitação das apostas online e mudanças nas regras do crédito consignado.
Solução definitiva exige mudanças estruturais
Apesar de considerar o Desenrola um passo importante, o Dieese afirma que o problema do endividamento não será resolvido apenas com renegociação de dívidas. Para a entidade, é necessário enfrentar causas estruturais da perda de renda e da precarização das condições de vida da população.
Entre as medidas defendidas estão:
- valorização do salário mínimo;
- fortalecimento dos sindicatos e da negociação coletiva;
- ampliação dos serviços públicos;
- regulamentação das plataformas digitais;
- redução dos juros bancários;
- controle mais rigoroso sobre o sistema financeiro e as apostas online;
- e geração de empregos de qualidade por meio da reindustrialização do país.
O estudo conclui que o alto endividamento das famílias ajuda a explicar por que muitos brasileiros continuam enfrentando dificuldades econômicas, mesmo diante de indicadores macroeconômicos considerados positivos.
Condsef/Fenadsef