Dieese alerta para limites da política de juros e impactos da PEC 65 sobre o Banco Central
A inflação dos alimentos continua sendo um dos principais desafios para o orçamento das famílias brasileiras. É o que destaca o mais recente boletim de conjuntura do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que analisa as causas da alta dos preços, os limites da política monetária baseada no aumento dos juros e os impactos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que amplia a autonomia financeira e administrativa do Banco Central.
O estudo mostra que, embora a inflação geral esteja relativamente controlada, os alimentos seguem pesando no bolso da população, especialmente das famílias de menor renda. Entre janeiro e maio de 2026, enquanto o IPCA acumulou alta de 3,20%, os alimentos consumidos nos domicílios registraram aumento de 5,68%, aprofundando as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.
Segundo o Dieese, essa pressão não é resultado apenas do aumento da demanda. A inflação dos alimentos está relacionada a fatores como eventos climáticos extremos, conflitos internacionais, aumento das exportações de commodities, elevação dos custos de produção e concentração de mercado em alguns setores. São fatores que fogem ao alcance da política tradicional de elevação da taxa de juros.
Juros altos não resolvem inflação causada pela oferta
O boletim chama atenção para os limites da política monetária quando a inflação é provocada por problemas de oferta. Nesses casos, aumentar a taxa Selic pouco contribui para reduzir o preço dos alimentos e ainda produz efeitos negativos sobre a economia.
Entre esses impactos estão o encarecimento do crédito, a redução dos investimentos produtivos, a desaceleração da atividade econômica e a diminuição da geração de empregos. Além disso, os juros elevados aumentam as despesas com o pagamento da dívida pública, reduzindo recursos que poderiam ser destinados a áreas como saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais.
Para o Dieese, o combate à inflação exige uma estratégia mais ampla, que inclua fortalecimento dos estoques reguladores, investimentos na capacidade produtiva, políticas cambiais e ampliação da atuação do Estado para reduzir os impactos de choques externos sobre os preços.
PEC 65 amplia debate sobre o papel do Banco Central
O boletim dedica atenção especial à PEC 65, em tramitação no Senado Federal, que propõe ampliar a autonomia financeira e administrativa do Banco Central.
Na avaliação apresentada pelo Dieese, a proposta vai além de mudanças administrativas. A PEC altera a natureza jurídica da instituição, cria fontes próprias de financiamento, modifica regras de governança e prevê que futuros servidores sejam contratados pelo regime da CLT, deixando de ingressar pelo regime estatutário.
Essas mudanças têm gerado amplo debate entre economistas, entidades representativas dos servidores públicos e centrais sindicais. Entre as principais preocupações apontadas estão a redução dos mecanismos de controle sobre uma instituição, a utilização direta das receitas de emissão de moeda pelo próprio Banco Central e os possíveis impactos sobre a condução da política monetária.
O Dieese também ressalta que as decisões do Banco Central têm efeitos diretos sobre o custo do crédito, o investimento produtivo, a geração de empregos, o financiamento das políticas públicas e a distribuição da renda. Por isso, defende que o debate sobre política monetária não deve ficar restrito ao mercado financeiro, mas incorporar representantes do setor produtivo e do mundo do trabalho.
Debate interessa diretamente aos servidores e à sociedade
Para a Condsef/Fenadsef, a discussão apresentada pelo Dieese reforça a importância de acompanhar a tramitação da PEC 65 e seus possíveis efeitos sobre a administração pública, as políticas econômicas e as condições de vida da população.
Ao relacionar a inflação dos alimentos, os limites da política de juros e a proposta de ampliação da autonomia do Banco Central, o boletim evidencia que as escolhas sobre política monetária têm impactos que vão muito além dos indicadores econômicos. Elas influenciam diretamente o emprego, a renda, investimentos nos serviços públicos e o cotidiano da classe trabalhadora.
O boletim do Dieese encerra levantando duas questões centrais para o debate nacional: a quem beneficia a ampliação da autonomia financeira do Banco Central? E autonomia de quem, para quem?
Confira aqui a íntegra do Boletim de Conjuntura que traz a análise desses temas
Condsef/Fenadsef